segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Margarida Ilhéu, a Doceira-Motard




Confecciona pão de rala, encharcada, sericaia, fidalgo, toucinho do céu...
A última pérola é colocada no centro da coroa. À pinça. Mas o bolo real ainda não está pronto para ir à mesa. Falta uma espécie de muralha em forma de fios de ovos que o há-de circundar. É só mais uns segundos. Agora sim, já está. Margarida Ilhéu termina a sua obra e exibe-a: "Diga lá se não fica lindo?" Fica pois!

Mas antes de ser um verdadeiro bolo real, esta espécie de ícone dos doces conventuais - à base de ovos, amêndoa, gila e açúcar - deixou para trás três dias de paciência e saber. Foi um legado que Margarida herdou com orgulho de Maria Carolina e Adémico, um casal de idosos de Alcáçovas que partilhou o segredo com a jovem pasteleira da terra. "A massa tem que descansar de um dia para o outro. Só depois pode ser cozida. Demora horas até arrefecer e só ao terceiro dia o bolo é enfeitado. Este leva muito tempo. O senhor Adémico levava uma tarde inteira a fazer a coroa", recorda ao DN.

Não admira que o bolo real tenha sido apresentado como um cartão de visita na sétima Mostra de Doçaria das Alcáçovas, que decorreu naquela freguesia de Viana do Alentejo. Uma terra pacata, onde as mãos enrugadas da maioria das gentes mostram que a desertificação acelerou em grande escala, depois da agricultura ter perdido o fulgor de outros tempos. Mas nem por isso a vila desiste de procurar o seu futuro. Nem que seja a adoçar a boca aos portugueses.

Daí o empenho das mãos que confeccionam toucinho do céu, pão de rala, sericaia, encharcada, mel e noz, fidalgo, lampreia, trouxas de ovos e o "Conde das Alcáçovas". Ficamos a saber que, à primeira vista, este elemento da nobreza da doçaria regional se assemelha às farófias, mas que, depois, tem outros segredos.

Mas, afinal, uma doceira é ou não uma artista? Margarida parece intrigada com a pergunta: "Às vezes acho que sim, mas depois há coisas que não consigo fazer. Esta semana pediram-me um barrete de pasteleiro em maçapão, mas fiquei irritada porque não me saiu nada de jeito."

A aventura começou há 13 anos, quando estava cansada de pedir dinheiro ao pai e queria ir com o namorado - hoje marido - a uma concentração motard em Gerez de la Frontera. "Perguntei-lhe se não seria boa ideia fazermos uns bolinhos. Ele ainda duvidou, mas as pessoas adoraram as minhas padinhas - bolo branco - naquela Páscoa."

O mote estava lançado. O 12.º ano ficou pelo caminho: Margarida mergulhou na secular Padaria Primavera, que pertenceu ao avô do marido. Conservou as padinhas, mas acrescentou-lhe os bolos secos (broas e areias). Ainda só trabalhava com duas massas, mas já alargou a nove. Imposições da doçaria conventual que fazem hoje da Pastelaria Margarida Ilhéu uma referência na região.

"Faço pesquisa na Internet para me actualizar e de umas receitas vou tirando outras", revela Margarida Ilhéu. Aqui sim, a resposta vem na ponta da língua: "Quando vou às mostras nunca tenho mãos a medir. Às vezes, as pessoas até brigam para comprarem os meus bolos. Se calhar, é porque gostam, não?"
Reportagem de Roberto Dores para o , em 15 de Dezembro de 2007.

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